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Notícias




20/05/2010
O FOGO APAGOU... UM TESOURO!

OSVALDO AUGUSTO BRAZIL ESTEVES SANT’ANNA

COORDENADOR DO INSTITUTO NACIONAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA em TOXINAS

PESQUISADOR CIENTÍFICO DO INSTITUTO BUTANTAN

 

Em junho de 1897, na bagagem do médico Vital Brazil que se mudava de Botucatu para São Paulo, imagino roupas, utensílios, algum mobiliário. Junto sua mulher Maria da Conceição, e duas filhas, Vitalina de três anos, e minha avó Alvarina com um ano. E, por incrível que possa parecer, alguns exemplares de Cascavel e Jararaca, serpentes que estudara com seu espírito de biólogo, e que marcariam sua carreira de cientista dando origem a uma instituição única, reconhecida mundialmente: o Instituto Butantan. Mesmo antes de sua fundação oficial, em fevereiro de 1901, exemplares dessas espécies e de outras, venenosas ou não, chegavam à então Fazenda Butantan.

Até o sábado passado, dia 15 de maio, esses cobras pioneiras sobreviviam com outras muitas e diversas na Coleção de Serpentes do Instituto Butantan, enviadas no início pela população rural de São Paulo, e posteriormente de todo o Brasil e, depois ainda do exterior, e também coletadas por pesquisadores durante mais de 100 anos. A Coleção era referencial mundial. A visão e o ideário de Vital Brazil continham princípios raramente respeitados: ciência, educação, cultura e produção de bens para a sociedade nasceram e se firmaram ao longo dos anos.

Agora, ao invés de culpados, deve-se repensar o futuro, revitalizar as estruturas físicas já existentes e restaurar a arquitetura do complexo histórico, apoiar os Departamentos atingidos, reconhecer e melhorar os salários de funcionários administrativos e auxiliares técnicos, e cessar com as mesmices para desviar o foco do essencial e de propor reestruturação de núcleos. Só para se ter uma idéia sobre o nível de excelência dos grupos de pesquisadores do Instituto Butantan, em 2007, dos dez artigos publicados no Brasil na área da Biomedicina mais citados internacionalmente, cinco foram produzidos por pesquisadores do Butantan. Se há produção de vacinas e soros de excelência é porque há pesquisadores altamente qualificados capazes de produzir ciência de primeira ordem. As principais agências de fomento como CNPq, FAPESP, FINEP, sempre apoiaram, e substancialmente, projetos relevantes científica e tecnologicamente do Instituto Butantan.

E o Instituto passou a integrar-se à vida das pessoas, pois, a sociedade, ao contrário de muitos passageiros governantes, desde sempre reconheceu a relevância dos trabalhos dos pesquisadores e a importância dos soros anti-peçonhentos produzidos pelo instituto, que salvam vidas e minoram os sofrimentos. Em 1897, e por muito tempo depois nada se sabia sobre DNA, código genético, as escolas francesa de Louis Pasteur e a alemã de Robert Koch impulsionavam a experimentação nas ciências, Darwin e Wallace pouco lidos, e o Brasil dava seus primeiros passos nas áreas da Imunologia, Bacteriologia, Parasitologia. Entre nós, Adolfo Lutz, Vital Brazil e Carlos Chagas inovavam, para usar um termo hoje venerado. Aliás, a Coleção de Serpentes foi, desde seu início, inovadora e, a partir dos anos 1990, passou a contribuir de modo decisivo nos estudos sobre biodiversidade e evolução biológica através de técnicas de biologia molecular e que abriram um leque imenso sobre a filogenia, sobre a história natural desses répteis. Um tesouro único e incomparável no mundo! O senso-comum, infelizmente, não consegue entender o que o fogo apagou. Triste país descuidado, cujo passado pouco ou nada importa e, portanto, tem seu futuro incerto, insípido, inodoro... Insalubre!

E fogo apagou, não apenas uma coleção, mas apagou Projetos de Pesquisa em sua totalidade ou parcialmente, caso do Projeto INSTITUTO NACIONAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA em TOXINAS financiado pelo CNPq e pela FAPESP, apagou a sequencia de trabalhos de estudantes orientados por pesquisadores do Instituto e de outras instituições de ensino e pesquisa brasileiras.

Hoje,vagamos ao sabor de ONGs e OSIPs e, mais do que nunca, a preocupação da elite empresarial, administrativa pública ou privada, de políticos, de donos do dinheiro é o imediato, a publicidade, a velocidade; vive-se de aparências, das inaugurações de obras, de vaidades. Mal sabe o desempregado mental [a maioria dos empregados economicamente o são!] que, o telégrafo ou o mais atual dos telefones celulares, nada mais são do que variações sobre um mesmo tema, e que a real relevância vem da idéia, essa sim genial, da comunicação à distância. Somos cidadãos guiados pelos especuladores das bolsas de valores e, pior, pelos especuladores de mentes. Constroem-se prédios, mas os antigos são lixo, mal conservados, com gambiarras, como os prédios do complexo que constituem o Instituto Butantan [o Prédio símbolo está agonizando!]... Pois o que atrai é o novo, o que vale é o que inauguramos; inventam-se reestruturações sem valorizar ou respeitar as histórias dos indivíduos, das instituições. A educação e a ciência, a valorização de professores e pesquisadores é retórica de políticos e que o Estado tem que suportar.

Após 42 anos de estudos, de trabalho, de docência na USP, UNICAMP, UNIFESP, a realidade me vem mais viva do que nunca: como o poder exala o podre! Como há gente que pensa pequeno nesse mundo! E propõem inovações? Como recentemente expus em reunião na FIESP, INOVAÇÃO É UMA HISTÓRIA CONTADA NO FUTURO. O que o fogo destruiu foi uma dessas raras histórias e que não poderá gerar novas histórias contadas no futuro...  A miséria é mental, a pobreza será infinita.

 

São Paulo, 17 de maio de 2010



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